Marcelo Odebrecht ensina: democracia é ilusão

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Inúmeros nomes, listas inteiras de pessoas, empresas, firmas, partidos políticos e figurões. As delações intermináveis dos Odebrecht (e principalmente de Marcelo, o sucessor dessa dinastia) mostram algo bastante simples, e que parece ainda não ter sido compreendido pela maioria dos observadores: democracia é ilusão.

A dinastia Odebrecht praticamente tem ditado os rumos da política brasileira (e não só dela) há pelo menos mais de trinta anos - remontando inclusive ao regime militar, o que destrói a retórica direitista da "moral ilibada" dos governantes militares.

Em todos os processos eleitorais, a empresa Odebrecht (empreiteira, essencialmente dominante e com um capital vastíssimo) financiou diretamente as candidaturas de praticamente todos os candidatos (ao menos os mais significativos deles). Isso significa, em termos práticos, que não importa quem vence uma eleição, a Odebrecht sempre ganharia - como num Cassino: a casa sempre ganha.

Partindo do pressuposto de que Democracia é participação política efetiva e direito de escolha, não é difícil concluir que não existe democracia no Brasil (aliás, na maioria dos países do mundo). Primeiro, porque não há participação de fato, no máximo uma representatividade - o cidadão comum tem muito pouca participação na vida política além do voto de dois em dois anos; segundo, porque não há escolha real se todas as alternativas são vinculadas a uma mesma origem ordenadora (no caso, a Odebrecht). O que há, no Brasil, é uma Oligarquia ou Cleptocracia.

O voto, nesse processo, se pode ser considerado como um ato de democracia efetiva (o que não é o caso), seria um instrumento irrelevante e irrisório nesse sistema. A questão é que, como a Odebrecht, uma estrutura tão gigantesca, passou praticamente despercebida da maioria da população? Não há transparência no processo, o que seria crucial para uma democracia de fato. E que outras estruturas como a Odebrecht (ou talvez maiores do que ela) não devem também efetivamente manipular o processo político pelos bastidores, sem que saibamos?

A questão toda não está no nível das "teorias da conspiração", mas no campo factual, comprovado, visível. Estruturas ocultas que dominam o poder são reais, e podem acidentalmente aparecer às claras - no caso, a Odebrecht só foi "descoberta" porque todo o processo de anulação do PT esbarrou num problema bem simples: depois da retirada do Partido dos Trabalhadores, a casta corrupta fatalmente daria início a um processo autofágico: o próprio governo está se desmantelando e desintegrando, porque todas as partes envolvidas são corruptas e, diante de uma denúncia, oferecem duas ou três no lugar.

Como sempre reiteramos, desde antes do Impeachment inclusive, a corrupção é tão severa que, nas acusações contra Dilma Rousseff, os delatores sequer incluíram as acusações mais graves de corrupção (lavagem de dinheiro, caixa 2, propinas, mensalão, etc.). E isso aconteceu por um simples fato: os próprios denunciantes eram cúmplices. A jogada da "improbidade administrativa" foi a "carta" especial no baralho.

Quando uma figura oculta da estrutura de poder foi também denunciada, o efeito dominó começou: Odebrecht está caindo, mas puxa consigo o Congresso, o Senado e a Câmara quase que por inteiro. Sua descoberta foi um "bug do sistema" pelo qual a casta política está pagando cara - não só pelos processos convencionais, mas pela fúria popular que já se alastra e os vários casos de câmaras de vereadores sendo atacadas Brasil afora, isso sem contar a recente invasão ao Congresso Nacional, por manifestantes (policiais civis, rodoviários, federais).

É preciso certa dose de cautela: a mídia tem se esforçado em forçar como verdade absoluta quaisquer declarações dos Odebrecht. Muitas coisas ainda precisam ser confirmadas, outras já foram desmentidas. De toda forma, a ligação próxima entre a Odebrecht e os principais partidos brasileiros (PMDB, PSDB, DEM e PT - e, no caso desse último, a mídia faz sempre um reforço intencional) e toda a estrutura política está mais do que confirmada.

Além disso, é preciso frisar que a Odebrecht não é a única empresa envolvida em esquemas de corrupção. Ela é tão somente a mais proeminente delas, e ainda é quase que impossível ter uma noção real do dinamismo desses esquemas.

A "manta" de falsidade que cobria a democracia, ou seja, a ilusão do funcionamento saudável das instituições brasileiras, foi tirada. O véu foi rasgado - e já podemos ver o que há no Profano dos Profanos (o antro da escória político-econômica). Há ainda muito entulho e estamos longe de visualizar o panorama inteiro.

Fonte: avante