O Paradigma do Fim

O último grau de Generalização
 
A análise das civilizações, sua correlação, sua confrontação, seu desenvolvimento, sua interdependência, são questões extremamente difíceis enquanto problemas, seja na dependência dos métodos, na profundidade da pesquisa, onde alguém pode obter resultados não apenas diferentes, mas diretamente contrários. Contudo, mesmo para obter as mais aproximadas conclusões, alguém deve aplicar a redução, reduzir a variedade de critérios para um modelo simplificado. O marxismo prefere apenas a abordagem econômica, que se torna substituta e denominador comum para todas as outras disciplinas. Assim também é o liberalismo (apesar de o ser menos explicitamente). 
A geopolítica, que é menos conhecida e menos popular que uma variedade de aproximações econômicas, mas não menos efetiva e óbvia em explicar a história das civilizações, sugere outro método de redução completamente diferente. Outra versão do reducionismo são as formas diversas de abordagem ética, que incluem "teorias raciais" como seu aspecto extremado.
 
Finalmente, as religiões sugerem suas próprias modalidades reducionistas para a análise da história das civilizações. Esses quatro modelos parecem ser os modos mais populares de generalização, e através deles existe uma diversidade de outros métodos, onde os mais tardios puderam fracamente emergir com certos critérios de popularidade, obviedade e simplicidade. 
 
A noção de "civilização" é de uma escala extremamente grande - talvez a maior, que é a da consciência histórica da humanidade, que é capaz de gerar - de métodos de redução que podem ser extremamente próximos, deixando de lado nuances, detalhes e fatores de média ou baixa relevância. Civilizações são conglomerados humanos, que possuem vastas marcas espaciais, temporais e culturais. De acordo com a definição, civilizações devem ter um tamanho significativo - elas devem durar muito, controlar regiões geográficas significantes, gerar estilos especiais e expressivos de cultura e religião (e, algumas vezes, de ideologia).
 
Ao fim do segundo milênio d.C., alguns resumos históricos das civilizações sugerem a si mesmos, por conta da significância da informação que sugere a ideia de concretização de algum limite, de algum limiar. E, consequentemente, a ideia aparece para trazer direções diversas da análise de civilização para um só paradigma universal. Certamente, o grau de simplificação, aproximação e redução será ainda maior do que nas quatro formas anteriormente mencionadas de modelos de redução, mas mal deve ser considerado como um obstáculo insuperável. 
 
Qualquer generalização (feliz ou não, uma justificada ou uma não especial) virá indispensavelmente através do criticismo afiado, que pode se levantar como uma questão tanto por parte dos "especialistas particularmente devastados", tendo esquecido há muito tempo os princípios primordiais do turbilhão de detalhes, e consciente ou instintivamente aderentes a algumas outras generalizações, apenas usando pragmaticamente as contradições nos detalhes para desacreditar o todo.      
 
Além disso, os temas do "Fim da História" (Francis Fukuyama), do "Choque de Civilizações" (Samuel Huntington), da "Nova Ordem Mundial" (George Bush), "Novos Paradigmas" (Nova Era), "Tempos do Messias", "Fim da Utopia", "Paraíso Artificial", "Cultura do Apocalipse" (Adam Parfrey), tornaram-se mais e mais populares conforme nos aproximamos dos limites do século - o limite do milênio. E todos esses temas são atendidos somente em um ou outro nível através de complicados modelos de reducionismo, que são fruto do início mais restrito de métodos unificados - primeiro de tudo, são aqueles quatro acima mencionados. 
 
O verdadeiro Marxismo
 
A doutrina de Marx foi tão popular no século XX, que é completamente difícil falar sobre ela, especialmente na Rússia, onde o marxismo foi, durante décadas, proclamado como a ideologia oficial. Esse problema é visto do mesmo modo mórbido e insaciado com alusões e conotações por intelectuais ocidentais, que também disputam e debatem Marx como tema central dos discursos filosóficos e culturais. Ninguém influenciou tanto a história moderna quanto Marx o fez - é difícil nomear um pensador comparável a ele em fama, popularidade e circulação de livros.
 
Entretanto, a exploração excessiva do marxismo trouxe, em algum momento, um resultado reverso - suas ideias e doutrinas pareceram tão universais, que em algum ponto alguém parou de compreendê-las, transformando o marxismo num dogma, um dispositivo, um clichê obscuro, que passou a ser usado e interpretado de um modo totalmente arbitrário.
 
Marxistas ortodoxos bloquearam as reflexões naquela esfera, canonizando as visões de Marx em esferas, onde elas eram obviamente desprovidas pelo curso da História me si mesmo (tanto econômica quanto política). Hereges e revisionistas alongaram demais o marxismo, incluindo ideias e teorias que, estritamente falando, não têm relação com o contexto marxista em si. E, depois de algum tempo, chegamos até uma situação paradoxal, quando o pensador mais popular e famoso do tempo presente (impenetrável) se tornou ininteligível para a maioria das pessoas. Ultimamente, o "nó Górdio" do marxismo foi liquidado pela declaração da filosofia marxista e da economia política da "ilusão" e, então, houve a renúncia universal da ideologia. 
 
O louvor excessivo e o dogmatismo voltaram-se para o mesmo caminho de excessiva subversão e relativismo. E a troca acelerada que parece tão impressionante e que construiu o marxismo foi subitamente liquidada em todas as partes. As forças, responsáveis pela criação do culto dogmático e alienado à Marx, foram as mais zelosas eliminadoras. Mesmo assim, Marx praticamente não teve aderentes, mas os poucos que aderiram não se tornaram menos profundos e contundentemente exatos em definir certas questões por conta disso.
 
A situação está se erguendo, a situação onde o marxismo, além de perder seus aderentes pouco a pouco, pode ser aplicada por forças completamente diferentes, tendo permanecido à parte do marxismo nesse tempo, quando a agitação intelectual e política ainda reinada em torno de suas ideais e nomes.
 
Tal distância sem engajamento em ou um outro campo marxista no estágio prévio da história intelectual permite redescobrir Marx outra vez, ler sua mensagem no caminho que antes era impassável. É absolutamente óbvio que a vasta parte das visões históricas e culturais de Marx são desesperadoras, obsoletas, e vários aspectos de sua doutrina devem ser descartados (rejeitados) já que são inadequados. Contudo, é mais importante considerar imparcialmente esses aspectos de sua doutrina, que, vice-versa, retêm completamente algum valor na atualidade, e que podem ajudar a compreender, de algum jeito, os aspectos mais importantes do paradigma histórico em seu quadro econômico, social e político. E não há quem possa ser comparado a Marx nesse sentido. 
 
Nomeadamente, foi ele quem formulou a capacidade do reducionismo do paradigma histórico, capaz de explicar seu processo essencial e suas orientações com uma confiabilidade contundente, uma obviedade convincente. Contudo, não é inconveniente se lembrar da compreensão dos princípios marxistas da fórmula histórica. A abordagem de Marx para a história é dialética, pressupondo o desenvolvimento de correlações dinâmicas entre os (princípio) principais sujeitos dos eventos históricos. É perceptível, juntamente com o dualismo fundamental desses assuntos, essa influência através de sua teoria, o que predetermina a dialética, seus conteúdos e a base ética de seu curso. 

 

Esses dois sujeitos foram definidos por Marx como o trabalho e o capital. Marx considerou o trabalho como um impulso criativo e construtivo do ser, o elemento central da vida e da ação, como um princípio solar e positivo. Usando expressões que carregavam conceitos darwinistas, o marxismo diz que "o trabalho fez do macaco um homem". A questão é que o elemento da criação e da produção é o principal vetor de existência, que muda os processos dum estágio horizontal e interno para um estágio vertical e volitivo. 

 

De acordo com Marx, o trabalho é um princípio claro e positivo. Fora da ética da Bíblia, na qual o trabalho é resultado da Queda e algum tipo de punição por conta da violação de Adão em relação aos mandamentos divinos (tal atitude em relação ao trabalho é característica presente também em outras tradições religiosas), Marx indubitavelmente proclamou o trabalho como um elemento sagrado, inteiramente positiva, e sua primazia (sua natureza primeira) é o valor próprio e a autossuficiência como suas características. Mas, em seu estado primordial, o trabalho, como impulso primário do desenvolvimento do ponto de partida da história (como a Ideia Absoluta de Hegel) ainda não se concretizou, não pode trazer a completude de sua natureza inerentemente iluminadora. 
 
Para atingir isso, um processo de movimento longo e complicado é exigido através dos labirintos dialéticos da história. Só depois de terríveis provações e proezas, o trabalho estará apto a atingir seu estado vitorioso e triunfante através de um número de auto-negações dialéticas, a se tornar completamente cônscio, alegre e livre. De acordo com Marx, toda a história é encontrada entre o "comunismo das cavernas" - o estado primordial, quando o trabalho era livre, mas não realizado e nem universal - e o puro comunismo, quando o último retorna ao seu caráter iluminado de autossuficiência, tendo caminhado através do labirinto da alienação, mas isso ocorrerá plenamente, então, em sua extensão completa, total e universal. 

 

O homem se torna humano depois de realizar o elemento do trabalho. Mas ele se torna um humano completo só depois de estar apto a realizar o valor absoluto desse elemento, livrando o último de todos os toques do princípio negativo, o que é a época do comunismo. Então, qual é esse polo negativo, de acordo com o marxismo? O que se opõe à natureza iluminante do trabalho?

 

Marx chama esse polo de "exploração", e ele instintivamente revela a forma suprema e perfeita dessa exploração no capital. O capital é o nome para a palavra mal, de acordo com o marxismo, o princípio sombrio, o polo negativo da história. Entre o "comunismo da caverna" do homem que ainda se formava e o comunismo puro há um longo período de "exploração", alienando o trabalho de sua essência, de suas provações e privações, bloqueando o sol no labirinto da escuridão.  
 

 

Falando de modo apropriado, isso é apenas o conteúdo (substância) da história. O capital não aparece duma só vez, mas se mostra gradativamente como instrumento e mecanismo do elemento iluminador da exploração do trabalho por meio de forças sombrias de usurpadores perfeitos em si mesmos. O desenvolvimento do trabalho é condutivo ao desenvolvimento dos modelos de exploração.
 
As dialéticas complicadas das forças produtivas e da correlação das relações produtivas e suas dinâmicas constantes leva aos dois polos da história econômica ao longo da espiral do desenvolvimento. Os objetivos opostos e os vetores de atividade dos trabalhadores e dos exploradores promovem o caminho objetivo da intensificação de um processo político e econômico. As forças produtivas são estruturas internas do trabalho e de sua organização. As relações de produção são o modelo para a interação dessa estrutura básica com o princípio do explorador.
 
O elemento do trabalho é o elemento da abundância. O trabalho sempre produz algo além do que é necessário para suprir as necessidades vitais dos próprios trabalhadores. Aí está a essência positiva, criativa, iluminante, um princípio solar de fato. O trabalho produz excedente. Esse excedente, essa sobra é tomada pelo polo negativo, os parasitas da história. As relações produtivas são, através de toda a história econômica, reduzidas à expropriação de alguma substância dos agentes, da minoria. Como as forças produtivas são perfeitas em si mesmas, assim também o são os paradigmas de exploração. Mas, já nos primeiros estágios da história da humanidade, podemos desvendar os aspectos característicos de dois seres, que se confrontam com toda sua força até o fim. 
 
O trabalhador primitivo é o germe do proletariado industrial. A elite tribal é o germe do capital. Conforme os longos milênios da história da humanidade passam, dois sujeitos do drama mundial atingem seu mais puro estado, plenamente concretizado e resumem todos os estágios prévios. Do sistema de posse de escravos, passando pelas relações feudais até chegar à forma do capitalismo em si, o mais importante em muitos aspectos escatológicos é o estágio da doutrina marxista. Aqui, todas as complicadas situações sociais são reduzidas ao dualismo absolutamente claro - o proletariado como classe é a incarnação do elemento de trabalho econômico e histórico e seu resultado, e a burguesia é aquilo que incorpora o polo absoluto, o mais perfeito, completo e consciente da exploração.
 
O polo resplandecente finaliza seu caminho trágico através dos labirintos da alienação, e o polo obscuro se aproxima de sua vitória completa. O proletariado e o capital. O puro trabalho, o proletariado que não possui propriedade ("exceto suas correntes") - e o capital puro, sendo transmutado daquilo que é possuído para aquilo que possui, no elemento da pura alienação, da absoluta exploração. Marx reduz todos os problemas históricos, filosóficos, culturais, sociais, científicos e técnicos ao seu esquema econômico e político, considerando essas coisas como derivadas disso e secundárias em relação ao paradigma básico.
 
Mais além, Marx proclama que a segunda revolução industrial, que representava a realização do capitalismo em seu auge, era o ponto de virada da história mundial. Naquele momento, os dois sujeitos históricos - o trabalho e o capital - tornaram-se não apenas ferramentas da história dentro duma lógica objetiva, mas seus sujeitos conscientes e auto-dependentes, aptos não apenas a submeter a necessidade, mas também a gerenciar os mais importantes processos históricos, preparar esses processos, provocar, projetar, estabelecer seus próprios desejos autônomos. A questão não é sobre o indivíduo ou o grupo, mas sim sobre o sujeito da classe.
 
O proletariado, tendo se tornado uma classe, se transforma numa personalidade histórica, realizado pelo trabalho, o sucessor do excedente em todos os estágios de seu desenvolvimento. O capital incorpora a minoria do mundo, a remoção, a alienação, mas só no estado absoluto, livre, volitivo e pessoal. Daí em diante, ele se torna apto a planejar a história, a gerenciá-la. Nesse estágio, o trabalho e o capital passam para o nível de ideia ou ideologia, e existem desse ponto em diante não apenas como substâncias objetivas da realidade, mas também de um espaço de pensamento ideológico.
 
A chegada dessas duas personalidades na esfera do pensamento revela plenamente o dualismo essencial também nessa esfera - há o pensamento do trabalho e o pensamento do capital, há a ideologia do excedente e a ideologia da subtração. Ambas ideologias recebem a máxima independência e liberdade, e toda a esfera da consciência se transmuta da esfera da reflexão para a esfera da criatividade, da projeção. A ideologia do trabalho (a filosofia proletária) retém aqui seu caráter criativo também, e cria o projeto. A ideologia do capital (a filosofia burguesa) permanece essencialmente negativa - usurpa e reproduz o vazio, conceitualiza o imobilismo, congela a vida, postula o presente momento e nega o objetivo.

A suprema e mais perfeita fórmula do capital é, de acordo com Marx, a política econômica liberal inglesa - especialmente a teoria da "livre troca", do "mercado universal" de Adam Smith e seus seguidores. Mas, com exceção disso, a forma mais evidente que existe é a variedade de construções ideológicas sutis, complicadas e complexas, cobrindo o fôlego pernicioso e parasitário do capital. A filosofia burguesa  torna-se, daí em diante, a arma de exploração mais efetiva, sua forma superior.

Mas, para contrabalançar essa filosofia, o corpo doutrinário da classe trabalhadora forma a si mesmo, os principais contornos da ideologia comunista se tornam mais e mais claros. Marx considerava seu próprio trabalho nesse contexto. Ele tinha o pressentimento de que suas ideias formariam a "filosofia do proletariado", tornando-se o mais importante instrumento de trabalho durante sua última batalha escatológica contra seu inimigo, desde os tempos mais remotos.

Marx proclamou um tipo de "Evangelho do Trabalho". Ele assegurou o trabalho como sendo o ponto de transformação na história política e econômica, transformando-se no puro trabalho, trabalho que deveria realizar a si mesmo momentaneamente em sua história, começar a desempenhar a função de um dos dois polos teleológicos da história, desvendando o mecanismo de decepção e alienação como sendo a base de toda exploração, desmascarando a função negativa, vampírica e de subtração do capital (por meio da explicação do valor do excedente de produção e a lógica de expropriação) e trazendo a revolução proletária, que deveria lançar o capital no abismo da não-existência e desenraizar o mal do mundo.

Depois dessa curta fase de formação transitória (socialismo) o "Éden na Terra" viria, o trabalho tornar-se-ia completamente livre do princípio obscuro. Aqui, a essência do modelo marxista de política e economia é delineada. E alguém pode reconhecer (admitir) que ele é tão persuasivo e confiável, que não nos surpreende o por que de as visões de Marx terem cativado tantas pessoas no século XX, tendo se tornado um tipo de "religião", para a qual sacrifícios sem precedentes foram feitos.

De que modo o panorama de Marx foi colocado em prática? Em que ele foi inexato, ou desaprovado? Como poderia o conteúdo da história política e econômica de nosso século ser considerada, se nós permanecemos nos padrões delineados pela filosofia histórica marxista? No limite do terceiro milênio, podemos afirmar que o capital venceu o trabalho, virou a mesa e evitou a revolução, dissolveu a manifestação histórica completa do trabalho como matéria revolucionária, impediu o perigo de uma concentração filosófica proletária num aparato unitário, pleno em direito ideológico. 

Mas, ainda assim, o trabalho inspirado por Marx tentou dar "a última e decisiva batalha" contra seu inimigo primordial. O trabalho foi derrotado, mas o fato da grande batalha não pode ser negado. Essa batalha é só o conteúdo principal da história política e social do século XX. Tudo isso de acordo com Marx, mas com algum outro resultado (não um resultado bom). O mal mundial venceu. A subtração tornou-se ainda mais forte e mais hábil do que o excedente. O capital tomou a forma de sujeito provido de superioridade sobre o trabalho, tendo também tomado a forma do sujeito.

Como isso toma lugar na vida real? Primeiramente, a primeira falta de correspondência para com a ortodoxia marxista aconteceu no momento da grande Revolução de Outubro. Esse evento tornou-se o ponto chave da história pós-marxista. Por outro lado, a revolta dos marxistas-bolcheviques demonstrou o fato de que as ideais marxistas eram verdadeiras e se confirmavam pela prática real. O partido trabalhista proletário comunista se tornou apto a fazer a revolução, derrubar o sistema explorador, destruir o poder do capital e a classe burguesa, construir o Estado socialista, tudo se baseando nas teses de Marx em si mesmas.

O marxismo foi proclamado como ideologia dominante do Estado. Em outras palavras, a experiência russa deu a primeira confirmação do direito e da efetividade da doutrina marxista revolucionária. Contudo, o fato de que a revolução russa é a mais importante circunstância aqui - a revolução proletária bem sucedida não aconteceu onde e quando Marx havia predito. O erro espacial e temporal não foi quantitativo, mas sim qualitativo. Contudo, esse erro carrega uma enorme significância doutrinária.

Marx supôs que o estágio final do proletariado como classe e sua ação de formação do partido revolucionária deveria vir dos países mais desenvolvidos, dos países industrializados do Ocidente, exatamente onde os mecanismos burgueses atingiram seu mais perfeito estado de desenvolvimento, e o proletariado industrial nesses lugares tornar-se-ia a classe dominante de todas as forças produtivas. Marx achou que as revoluções proletárias iriam provocar uma reação em cadeia imediata em outras sociedades e Estados. Marx estava seguro de que outros pontos espaciais e temporais nas revoluções socialistas não poderiam surgir, por conta de ambos sujeitos históricos - o trabalho e o capital - que ainda não haviam atingido seu estágio, quando estariam completamente adequados para a transição do material para o ideal, do subjetivo para o consciente, quando o máximo estágio de base para o desenvolvimento de uma superestrutura numa forma adequada fosse possível.

A experiência russa mostrou o fato de que a revolução socialista tornou possível e procedeu com sucesso num país de capitalismo subdesenvolvido, muito antes da conquista em plena escala do segundo estágio da revolução industrial, num país onde a parcela do proletariado industrial era insignificante, e onde, após a revolução vitoriosa dos bolcheviques e de seu processo não ter se espalhado por toda a Europa, havia permanecido contido nas bordas do antigo Império Russo. O trabalho formou o partido político e venceu o capital em condições completamente diferentes daquelas vistas por Marx.

Em outras palavras, a histórica Revolução Russa corrigiu sua teoria espiritual paterna. O senso de correção história é até o mais extenso limite compreendido na pesquisa do fenômeno nacional-bolchevique, analisado em detalhe com Mikhail Agurskiy. A revolução proletária na Rússia provou o fato de que a vitória do trabalho sobre o capital é possível e real somente com a condição da participação de suas dimensões político-econômicas adicionais - o nacional-messianismo (completamente desenvolvido nos judeus russos e do Leste europeu), místico e de tendências niilistas sectárias (tanto do povo ordinário quanto dos intelectuais), os blanquistas de estilo ordenador e conspiratório do partido revolucionário (o leninismo e, mais tarde, o stalinismo). 

A propósito, o conjunto análogo de abordagens, apesar de menos radicais, assegurou a vitória de algumas outras forças anticapitalistas, que foram aptas a concretizar na prática a revolução quase socialista - o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão. Em outras palavras, o marxismo passou a ser historicamente praticável em formas heterodoxas e nacional-bolcheviques, algo um pouco diferente daquele conceito estrito de Marx.

Isso se tornou verdade apenas em combinação com outros fatores e, mais especificamente falando, onde a doutrina política e econômica de Marx era combinada com tendências culturais e religiosas que eram muito diferentes do discurso histórico-cultural (das sugestões) do próprio autor do Capital. Em contraste com o sucesso da realização histórica do marxismo está o sucesso do nacional-bolchevismo, a transição para o socialismo que não ocorreu no Ocidente burguês no momento em que o capitalismo alcançou seu limite de desenvolvimento, no limiar da terceira revolução industrial (e isso aconteceu nos anos 1960 e 1970 do século XX).

Enquanto que o marxismo em sua versão heterodoxa se tornou praticável, a versão ortodoxa foi refutada pela história. O capitalismo, em sua forma  mais desenvolvida, se transformou em algo apto a superar o estágio perigoso de desenvolvimento, efetivamente vencendo a ameaça de rebelião proletária e passando para um nível ainda mais perfeito de existência, quando a alternativa se opôs ao próprio sujeito, quando o proletariado foi abolido, dispersado, vaporizado enquanto classe e quando o partido escatológico do trabalho, dentro desse sistema complicado, não teve outra alternativa senão passar para a Sociedade do Espetáculo (Guy Debor). Em outras palavras, a sociedade pós-industrial, tornando-se em realidade, definitivamente mostrou que as profecias compreendidas por Marx literalmente não foram trazidas à vida. Isso, aliás, é a razão da grande crise do marxismo europeu moderno.

Mas hoje nós sabemos também que o triste fim do Estado socialista, que foi liquidado como resultado de um processo exclusivamente interno, tendo levado o sistema nacional-bolchevique às vésperas fatais da Perestroyka. E outros regimes não-capitalistas da Europa também caíram - a Itália fascista e a Alemanha nacional-socialista. Então, no final do século XX, o capital havia vencido sobre o trabalho em todas as manifestações ideológicas - seja o marxismo ortodoxo (na forma da Social-Democracia europeia), a versão nacional-bolchevique dos sovietes ou dos tipos muito próximos, comportam variações dúbias dos regimes europeus chamados de "terceira via". 

A vitória do capital sobre o trabalho, em adição, mostra um grau maior de consciência do polo exato da história, que é apto a manter a aderência de longo termo ao seu objetivo primário, que é preparado para fazer conclusões a partir de seus inimigos históricos, modelos conceituais e também estudando e admitindo a prática de métodos e paradigmas, revelados pelo gênio revolucionário, para o propósito da prevenção.

Depois de Marx, o campo do trabalho em escala político-econômica global foi dividido em três campos ideológicos desarmônicos, conflitantes uns com os outros - o socialismo soviético (nacional-bolchevismo), a social-democracia ocidental (com reservas) e o fascismo. O campo capitalista permaneceu indivisível em sua essência e utilizou as contradições das ideologias do trabalho. Então, ao invés de unir o proletariado num partido comunista revolucionário, primeiramente pró-soviético, num radicalismo que apoiasse as organizações bolcheviques sob controle do Comintern, o que significava que estariam associados a Moscou como capital da Terceira Internacional, e postos com efeito sob seus desejos, depois, aos partidos social-democratas aborígenes, lutando pela autoridade nos círculos proletários com forças pró-Moscou, e, em terceiro lugar, com movimentos nacional-socialistas, aplicando a experiência nacional-bolchevique de Moscou (mas numa variante muito mais flexível) aos seus próprios contextos nacionais, formados no Ocidente burguês no momento crítico da história.        
 

A estratégia do capital consiste em três tipos de forças de trabalho e expressões ideológicas que estavam, de todos os modos, opostas umas às outras, evadindo a qualquer custo sua consolidação num organismo sócio-político histórico unificado. A social-democracia oposta ao bolchevismo, ambos opostos ao fascismo, e o fascismo em si mesmo oposto à social-democracia e ao bolchevismo. O estágio mais bem-sucedido dessa estratégia foi o "front do povo" da França durante a época de Leon Blum e das relações aliadas entre a URSS e da Inglaterra com os EUA durante a guerra contra os países do Eixo.
 
Por outro lado, os social-democratas ocidentais (não aderentes ao marxismo social-bolchevique ortodoxo) eram ativamente levados ao colaboracionismo político com o establishment burguês pela representação parlamentar, foram corrompidos pela cooperação com o sistema e também foram simultaneamente opostos aos "agentes de Moscou" dos partidos leninistas bolcheviques (a política de Karl Kautskiy é a mais significativa nesse sentido).
 
Finalmente, nos padrões do Estado soviético em si mesmo, havia não apenas a formação consistente e completa da doutrina do nacional-bolchevismo realizado através de uma ideologia contraditória, na qual o seu "ser" adotou o "é", elementos que foram cruzados em correlações estritas postos em aproximação com a herança de Marx (o que deve ser aceito e aquilo que deve ser rejeitado). Ao invés de tais correções, as ideologias soviéticas foram do leninismo insistente para a adequação do marxismo ortodoxo, negando esses aspectos e irrevogavelmente perdendo a possibilidade de uma reflexão consistente e cognitivamente adequada.
 
Ao invés da clara e simples imagem do trabalho e do capital como opostos na forma do sistema socialista soviético de um lado, e de países capitalistas ocidentais do outro, um mosaico separado emergiu, no qual a matéria extremamente negativa era de fato a própria existência de um compromisso (partindo do ponto de vista político e econômico) e os regimes fascistas conciliaram os colaboracionistas da social-democracia. Aquele fascismo intermediário e aquele componente social-democrata permaneceram firmes no caminho da formação do processo de um partido comunista proletário e internacional, o que deveria ter sido tomado em consideração durante toda a experiência espiritual da Revolução Russa.
 
Esse foi o fator externo. O fator interno consistia no sistema soviético em si mesmo e sua renúncia em fazer as conclusões ideológicas mais importantes (com todas as correções necessárias das visões culturais e filosóficas de Marx) de seu próprio sucesso, o que poderia, por seu lado, ter facilidade o processo de diálogo produtivo com o fascismo - especialmente em sua versão extrema. E, finalmente, a social-democracia ocidental, em si mesma, poderia ter feito um pacto anti-fascista com o povo, ao invés do pacto radical com forças burguesas e regimes que compreendiam negativamente noções nacionalistas do socialismo dentro do bloco unido anti-burguês.
 
O bolchevismo soviético, a social-democracia europeia e até mesmo o fascismo como anti-capitalista em sua essência eram ligados ao acordo na plataforma ideológica, em algum lugar entre a superestimação evidente de Marx pelos adeptos ortodoxos e sua evidente subestimação por parte dos fascistas. Tal ideologia hipotética, em algum absoluto universal elevado sobre o nacional-marxismo, tomando em conta a consideração de alguns outros pontos culturais, filosóficos, espirituais e nacionais juntamente com o gênio absolutamente correto do paradigma histórico de Marx; a concretização das reflexões aplicadas do ideal nacional-bolchevique poderiam ter sido efetivos em termos de uma plataforma sócio-econômica, na qual o princípio do trabalho poderia ter sido encarnado na mais perfeita forma.
 
Mas vimos que, evidente e infelizmente, isso só é possível apenas numa posterior reflexão, quando alguém pode sumarizar e analisar a grande experiência da catástrofe histórica. O capital como sujeito se transformou não apenas numa força, mas também em um tema mais inteligente do que o trabalho como sujeito. Ele não permitiu que o "fantasma/espírito/sombra do comunismo" fosse completamente concretizado na história, condenando-o a permanecer como um mero fantasma dali em diante. É algo trágico de se admitir. Mas dum ponto de vista epistemológico, de um ponto de vista de uma generalização histórica significativa que nos permitira compreender claramente essas coisas, sobre o momento da história em que estamos vivendo agora, é difícil subestimar essa conclusão.
 

Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho

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