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A Geopolítica da Distopia: O Totalitarismo de Orwell do ponto de vista da Teoria do Mundo Multipolar

O século XX assistiu à ascensão de diferentes ideologias que tomaram a forma do que se chama hoje de “totalitarismo”, formas extremamente autoritárias de governo, com restrições a  liberdades e discursos de superioridade e ódio a outros povos e visões de mundo, caracterizando o século XX como uma era de radicalismo político, sendo inclusive chamado por historiadores como Hobsbawn como a “Era dos extremos”. As duas guerras mundiais, a formação de grandes alianças entre diferentes nações em busca da consolidação de suas ideologias, como o comunismo, o fascismo, o nazismo e o liberalismo, levaram à crise do modelo de Estado-nação westphaliano e à formação de poderosos blocos geopolíticos, como o Eixo, durante a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética e mais tarde a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que travaram diversos conflitos bélicos e políticos que moldaram as fronteiras do mundo atual, levando ao fim de  antigos blocos e Estados e pondo fim à divisão ideológica do mundo que imperava antes da queda da União Soviética em 1991.

O que a filosofia de Vicente Ferreira da Silva pode ensinar aos adeptos da Quarta Teoria Política

Vicente se aproxima de um politeísmo, que se relaciona ao estudo das consciências, citado acima. Para nosso filósofo, os deuses são potências que, ao se apossarem dos homens, criam a consciência. Os deuses são realidades meta-humanas e, assim sendo, não são criadas pela consciência, mas sim a criam. A passagem do mito para a filosofia clareia a consciência, mas oculta a presença dos deuses. Um conceito de extrema importância na filosofia de Vicente é que sempre que ocorre um desvelamento, outro elemento é ocultado, o que ele chama de desvelamento oclusivo. Então, ao se desvelar a consciência, são ocultados os deuses. Todo o pensamento de Vicente pode ser sumarizado na inversão entre mito e logos. Ele propunha que a filosofia evoluísse retornando ao sagrado, aos deuses, exatamente o contrário do que buscava o hegemônico pensamento positivista e racionalista brasileiro. Esse foi um dos principais motivos do isolamento intelectual que lhe foi imposto. Aqui, podemos perceber como o próprio conceito de desvelamento oclusivo opera: ao resgatarmos o pensamento de Vicente, descobrimos o motivo de seu esquecimento. Ao imporem o esquecimento de seu pensamento, nos é desvelado o ponto mais central de sua obra, o aórgico, a sacralidade do mundo.

 

INTRODUÇÃO SOBRE NOOMAQUIA LIÇÃO 5. LOGOS DE DIONÍSIO

O regime diurno também é o regime guerreiro do patriarcado. O que dissemos sobre o Logos de Apolo pode ser facilmente aplicado a esse regime imaginário. De fato, segundo Durand, representa a luta contra a noite, a morte e as trevas; uma espécie de guerra apolínea perpétua. No campo da doença mental, esse regime corresponde ao estado paranoico. A paranoia é a absolutização do diurno, em que tudo é separado até o nível atômico, com uma destruição contínua do objeto paralela à consolidação do sujeito. Assim trabalha o guerreiro, lutando sem cessar e destruindo tudo o que encontra com sua espada; a espada é o diurno, o que separa, não mata, mas divide, destruindo o objeto e consolidando o sujeito.

INTRODUÇÃO SOBRE NOOMAQUIA LIÇÃO 4. O LOGOS DE CIBELE

A análise noológica do sedentarismo dos indo-europeus, dos quais nesta lição abordamos os pontos mais importantes, fornece-nos os elementos para entender a estrutura existencial de todas as sociedades indo-europeias. Agora sabemos que existem dois horizontes existenciais sobrepostos um ao outro, e é apenas a partir deste resultado que é possível aprofundar o estudo aprofundado de cada sociedade indo-européia específica – da Europa Ocidental, Europa Oriental, Irã ou Indiana. Tenho dedicado a cada uma dessas sociedades – ao Logos francês, germânico, latim, grego, inglês, iraniano, indiano – diferentes volumes do projeto Noomaquia, aplicando o conceito de “dois horizontes” para testar como essa hermenêutica opera, essa interpretação nos casos específicos representados por cada uma dessas culturas e como essa superposição de dois níveis afeta o conteúdo e a semântica de cada um desses povos. Posso afirmar com absoluta certeza que em todos os lugares podemos identificar os dois horizontes existenciais, suas interações e aspectos da prevalecente um horizonte mais do que o outro em uma variedade de contextos – na mitologia, na religião, na ciência, na visão do mundo em si – já que o Logos envolve e influencia tudo.

INTRODUÇÃO AO NOOMAQUÌA. LIÇÃO 3. O LOGOS DA CIVILIZAÇÃO INDO-EUROPEIA

Antes de tudo, vamos lidar com o horizonte existencial indo-europeu. Nesse sentido, é necessário especificar que o conceito de horizonte ou espaço existencial possa ser aplicado em diferentes escalas, tanto para pequenas comunidades quanto para médias ou grandes comunidades, unidas, por exemplo, pelas mesmas origens linguísticas. O que, então, significa um horizonte existencial indo-europeu? Se trata de um vasto tipo de união, coincidindo com o espaço em que vivem os povos que falam línguas indo-européias. A família de línguas indo-européias inclui línguas latina e românica, o grego, línguas germânicas, línguas celtas, línguas eslavas, persa, sânscrito e outras línguas pracritas, hitita e outras línguas anatólias, frígia , a língua ilírias, as línguas bálticas, etc. É interessante notar que a língua romani também pertence a essa comunidade linguística; Os ciganos têm origens incertas, mas também falam um idioma indo-europeu. O mesmo pode ser dito da língua iídiche: ela também pertence a essa família, sendo uma língua essencialmente germânica. Portanto, o ecumenismo indo-europeu, o horizonte existencial indo-europeu, é mais ou menos coincidente com o espaço habitado pelos povos que falam essas línguas. É um espaço imenso, que cobre um número enorme de populações.

INTRODUÇÃO AO NOOMAQUIA. LIÇÃO 2. GEOSOFIA

Husserl identificou o tempo com uma melodia, que é uma sequência de notas musicais que subtende uma lógica, uma chave cuja nota é de alguma forma predefinida pelas notas anteriores e a presença de uma nota desafinada perturba o ouvinte; do mesmo modo, a história, ou melhor, a esfera da história, não representa uma sequência temporal simples de fatos desconectados, mas uma sucessão de eventos que tem sua própria lógica. A história é música, mas apenas as pessoas relativas ou o Dasein podem entender completamente essa música histórica. Em outras palavras, não é universal; a história de cada pessoa opera com uma frequência sonora específica, de modo que ninguém mais é capaz de ouvir e entender perfeitamente sua melodia. Não sendo capaz de ouvir perfeitamente uma melodia de fora, é particularmente difícil expressar avaliações sobre a condição de uma pessoa específica, se ela está passando por uma fase positiva ou negativa, se está em desenvolvimento ou está em declínio, etc. Não há critérios universais no campo da história, porque a relação com o tempo é uma propriedade existencial do Dasein.

 

INTRODUÇÃO SOBRE NOOMAQUIA LIÇÃO 1. NOOLOGIA: A DISCIPLINA FILOSÓFICA DAS ESTRUTURAS INTELECTUAIS

O termo Noologia designa a uma nova disciplina filosófica. Noologia é um neologismo derivado de dois termos gregos: νοῦς (“nous”) e λόγος (“logos”).  Logos indica a palavra, o discurso ou a investigação. Assim, a Noologia é a disciplina que estuda o Nous. Mas o que é o Nous? Você pode traduzi-lo com mente ou intelecto, ou mesmo consciência. Algo que está profundamente dentro da mente humana. A questão então surge espontaneamente: o que se entende por humano?

O homem é um ser que difere de todos os outros do mundo em uma coisa: pensamento. Toda outra qualidade é compartilhada como a dos outros seres vivos, mas do pensamento constitui uma exclusividade do ser humano, que logo pode então ser definido como uma criatura pensante ou um ser pensante. Como resultado, o pensamento é por definição humano. Todos os seres vivos têm um corpo e várias instâncias relacionadas a ele (todos experimentamos dor física, prazer físico e assim por diante), mas nenhuma criatura, exceto nós, no mundo dos vivos, tem um intelecto e é capaz de pensar. O pensamento ou Nous, então, constitui a essência do homem. Todos os outros aspectos da vida são comuns ao homem e a outras criaturas, mas o pensamento, o intelecto é um aspecto único do homem e é o que nos torna humanos. Ser humano significa ser uma criatura pensante. Assim, o Nous é a raiz mais profunda do ser humano, da humanidade. Somos humanos porque o Nous está em nós.

O Advento do Robô (História e Decisão)

Estamos tocando a mesma melodia, e se não estivermos felizes poderíamos dizer “pare”... Só que isso não é possível. Temos que percorrer essa rota de volta ao princípio – rumo à primeira nota dessa sinfonia. Nós deveríamos perguntar agora: quem é o autor que deu início a esse processo de urbanização, que criou os trens, o liberalismo, a democracia, o progresso, o míssil, o computador, a fusão nuclear. Quem é o verdadeiro autor? E isso é essencial: porque foi a decisão humana, esse não foi um tipo de “processo natural”. Em um dado momento da história nós decidimos trilhar esse caminho, e agora nós só podemos desacelerar ou acelerar. Mas por que não perguntamos a nós mesmos: estaríamos indo na direção correta desde o começo? Terá sido essa decisão a correta?

Devemos retornar a esse momento, ao princípio dessa melodia – essa é minha ideia. Pode ser tarde demais e acordarmos cercados por robôs, perfeitos pagadores de impostos, tomando decisões democráticas, enviando mensagens SMS uns aos outros, de robô par robô.

Hegel à luz da Quarta Teoria Política – um breve esboço

A filosofia do alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel tem interessantes ferramentas para oferecer ao pensamento dissidente. Conceitos como dialética, práxis e Volkgeist, se adaptados à nossa luta, se tornam instrumentos de análise e de ação. Aliás, tal adaptação é fundamental, o que passa também pelo estudo de todo o percurso do pensamento pós-hegeliano, tanto em pensadores considerados de esquerda quanto nos considerados de direita. Ecos de Hegel estão em obras de naturezas tão diferentes como as de Marx, Lênin e Gramsci num oposto e Spengler, Gentile e Schmitt num outro. Essa é a distância que a sombra da influência hegeliana alcança. Nós podemos e devemos beber dessa fonte.

Contra acusações de fascismo

Quarta Teoria Política (nem liberalismo nem comunismo nem fascismo). De resto, não somos tutelados pelo Movimento Eurasiano de Dugin (ou qualquer outro) e nem lhe devemos qualquer satisfação nem tampouco nos responsabilizamos por quaisquer posicionamentos desse ator político russo. Somos brasileiros e latino-americanos, com nossa própria “agenda” de interesses.
Isso dito, cumpre esclarecer que Dugin, um patriota russo anti-liberal, não pode em absoluto ser considerado um autor fascista – e muito menos racista (nem todo fascista é racista, de qualquer forma – ainda que fosse o caso). Nos anos 1990, Dugin esteve próximo do movimento “nacional-bolchevique” e, provocativamente, se apropriou da ideia de um “fascismo vermelho” russo. Contudo, Dugin rompeu com o Partido Nacional Bolchevique de Limonov naquela mesma década e renunciou a tais ideias há muitos anos, conforme a evolução de seu pensamento.

Rumo à Quarta Teoria Econômica

A comunidade camponesa foi concebida como um ente soberano, e a supraestrutura acima desta consistia na esfera dos mortos e dos espíritos, que, em alguns casos, era ocupada por grupos heterogêneos (como, por exemplo, a elite dos conquistadores). Os sacrifícios, assim, eram enviados para lá, independentemente de tal esfera ser representada corporeamente (castas superiores) ou não (espíritos e mortos). Em todo caso, o eixo metafísico era personificado e responsável pela destruição dos excedentes ou das anomalias. Contudo, é fundamental estabelecer que o equilíbrio entre produção e consumo se dava no domínio da imanência pura, ou seja, era suficiente em si mesmo.

Quarta Via Política!

Nenhuma das grandes formações ideológicas ou grupos políticos insatisfeitos com o status quo consegue identificar com alguma proximidade qual é a natureza das transformações políticas que vem se impondo progressivamente no Brasil desde o retorno da democracia. E por que isso ocorre? Por causa exatamente desse apego a modelos teóricos ultrapassados, que bloqueia essa identificação. E ausente essa capacidade, o máximo que uma força política de oposição pode almejar é adiar por um punhado de anos (como fazem as ditaduras reacionárias) a difusão da decadência e da dissolução.

Pois bem, este livro de Alexander Dugin possui o grande mérito exatamente de fornecer instrumentos teóricos que nos permitam compreender os processos de transformação ideológica pelos quais o mundo vem passado desde a instauração da modernidade, assim como algumas diretrizes e orientações que se mostrarão extremamente úteis para que os autênticos revolucionários apliquem na construção de uma Quarta Teoria Política, segundo suas próprias realidades espaciais.

As raízes da identidade

A identidade extrema é sempre relativa, individual e condicional. A identidade profunda é absoluta, universal – no âmbito de uma sociedade em específico – e não depende da expressão individual. A identidade extrema é um produto específico da identidade difusa. A identidade profunda precede a identidade difusa e funciona como a potência espiritual que a constitui.

Semelhante análise é muito importante para uma compreensão precisa do desenvolvimento do nacionalismo no mundo atual.

Na Rússia, a identidade difusa (patriotismo) está em ascensão. Concentra-se particularmente no Estado e em Putin, especialmente após o ocorrido na Crimeia. Os Jogos Olímpicos ajudaram a cultivar e a revitalizar tais formas em particular.

A Quarta Teoria Política e o Pós-Liberalismo

Muitas pessoas estão fazendo isso. Isso é como uma reação natural ou um reflexo de vômito. Se alguém nos alimentava pensamos voltar a essa comida que não nos adoecia. Agora só o liberalismo nos alimenta e estamos doentes por isso, e lembramos febrilmente o que era antes, tratamos de pensar em como eram as coisas outrora, como não estávamos adoecidos e como podíamos seguir vivendo. E alguém dirá: o fascismo não era tão ruim e era também uma alternativa ao liberalismo. E daí em diante.

De fato, aqui surge a Quarta Teoria Política. Se analisamos mais a fundo o que propomos contra essa globalização e o liberalismo, se propomos, desafortunadamente, o comunismo da segunda teoria política ou o fascismo da terceira teoria política, então não podemos propor nada mais contra o liberalismo.

Os liberais mesmos esfregam as mãos ao ver isso. Quando começamos a criticar a globalização, dizem que somos fascistas e comunistas. Quando começamos a explicar que há algo mais, dizem que não. "Está justificando o comunismo e o fascismo, vocês são só comunistas ou fascistas enrustidos! Vocês são fascistas enrustidos ou comunistas enrustidos!" Neste sistema da filosofia política da modernidade não existe o conceito de uma quarta. O significado da Quarta Teoria Política começa com essa suposição de que não existe, mas deveria existir. Ela é necessária para derrotar o liberalismo sem cair na armadilha do comunismo e do fascismo. Talvez possamos ir de novo pelo mesmo caminho e construir uma sociedade socialista e totalitária na qual haverá pouca liberdade, e cedo ou tarde virão os liberais e tudo voltará a se repetir. Podemos construir um Estado fascista em algum lugar, como se tenta na Ucrânia, até que as pessoas entendam que não há liberdade suficiente e que o racismo, o nacionalismo e o chauvinismo são repugnantes. E logo voltaremos ao mesmo liberalismo novamente.

 

Quarta Teoria Política: Resposta às Críticas Marxistas

Não são poucos os desafios que a Quarta Teoria Política há de encontrar para se estabelecer no cenário político e intelectual nacional como uma teoria completamente nova e descomprometida em relação a todas as teorias e projetos de poder que a precederam. Em um primeiro momento, percebemos que a maior parte das vozes que se levantam para lançar críticas e acusações contra a Quarta Teoria Política, e seus adeptos, não vêm do inimigo declaradamente liberal, mas daqueles que, de uma forma ou outra, rebelam-se contra este mesmo inimigo. Isso não é nada surpreendente, e soa até natural, por algumas razões centrais.

Em primeiro lugar, porque o liberalismo teme a Quarta Teoria Política, já que a compreende como sendo o mais afrontoso desafio lançado contra si desde o início da modernidade. Os liberais conscientes não temem a 2ª e a 3ª TPs, pois, combatendo no campo dos paradigmas modernos, sabem-se vitoriosos e tem o testemunho da História a assegurar-lhes tanto. Já há muito tempo, o liberalismo aprendeu a instrumentalizar o simulacro sobrevivente da oposição que um dia os fascismos e os marxismos representaram para perpetuar-se como detentor de um poder hegemônico virtualmente inquestionável. Assim, a 1ª TP joga comodamente com as duas teorias modernas consecutivas, ambas confinadas à inexpressividade desde que foram derrotadas, e coloca-as para se digladiar esporadicamente conforme julga oportuno.  É evidente que em tal cenário não lhe convém a formação de uma ameaça real às próprias bases modernas sobre as quais o liberalismo globalista se consolidou, e seus agentes se esforçarão para manter-nos na marginalidade e para afastar de nós possíveis aliados, antigos simpatizantes das teorias fascistas e marxistas, usando da própria influência dos elementos modernos (e, portanto, comuns ao liberalismo) nessas teorias. Ora, a forma mais simples de executar essa estratégia divisionista é procurar identificar-nos com os espantalhos que os atuais simulacros fascistas e marxistas ocupam-se em extirpar, ou seja, tentarão nos apresentar como “marxistas esquerdistas” aos que vem da 3ª TP e como “fascistas capitalistas” aos da 2ª TP. É apenas ridiculamente previsível, portanto, que as principais críticas que os pretensos seguidores dessas teorias nos lançam sejam todas construídas nessa chave!

DO NIILISMO LIBERAL À QUARTA TEORIA POLÍTICA: UMA BREVE INCURSÃO TEÓRICA EM “OS DEMÔNIOS”, DE DOSTOIÉVSKI, RUMO AOS CONFINS DA PÓS-MODERNIDADE

Eis a origem niilista da democracia liberal, que de democrática só tem o requinte da nomenclatura, posto que ela não preserva a mais mínima semelhança com aquilo que os atenienses entendiam como sendo a manifestação autêntica do fenômeno democrático. É que, na Grécia Antiga, o que fornecia aos membros da pólis a legitimidade para participar do debate de questões políticas era o fato de eles preencherem os requisitos mínimos para se enquadrar na categoria de cidadãos, e não a tese especificamente moderna de acordo com a qual a participação em assembleias deliberativas compete, ainda que indiretamente, aos titulares dos direitos humanos e individuais – noções completamente alógenas à conjuntura da experiência grega. Assim sendo, o humanismo liberal-democrático de Kiríllov pode ser descrito pela imagem alegórica de um nevoeiro que nos impede de olhar para as coisas elas mesmas a fim de tocar sua verdadeira natureza. Essa neblina, evidentemente, é a raiz de toda a confusão de que padecem almas atormentadas como as de Stavróguin e de Vierkhoviénski; e, por essa razão mesma, Kiríllov talvez seja a chave para a compreensão da mensagem que Dostoiévski quis transmitir ao leitor, qual seja: liberal é todo aquele para quem a liberdade do indivíduo vale mais do que a própria vida humana, não importando quantas cabeças tenham de rolar e quantos ídolos tenham de ser profanados a pretexto de promovê-la.

Rumo à Laocracia

No capitalismo, os capitalistas governam. No socialismo, são os representantes da classe trabalhadora – o proletariado – que governam. No nazismo ou fascismo, governa a elite nacional ou racial.

No marco da Quarta Teoria Política, quem deve governar é o Povo – do russo Narod, semelhante ao Volk alemão (não é a mesma coisa que “população”).

A Rússia moderna situa-se no plano do capitalismo. Logo, ela é governada por capitalistas e, portanto, não pelo Narod. Para construir a Rússia na qual governará o Narod, é necessário concretizar uma revolução anticapitalista (anti-oligárquica, ao menos): magnatas financeiros deveriam ser excluídos do poder político (e isso é o central).

Todos devem escolher: Poder ou Dinheiro. Escolha o Dinheiro – esqueça o Poder. Escolha o Poder – esqueça o Dinheiro.

O Pacto Histórico com a Pátria

Alain De Benoist concedeu bastante relevo a essas ideias na década de 1970 e propôs o modelo para um “gramscismo de direita”. Ele convidou os intelectuais europeus a realizarem um pacto histórico com suas identidades (com a França, com a Alemanha, etc.), tomando-o nos termos de um sistema de valores de oposição ao moderno e ao pós-moderno. De Benoist afirmou que não importava se havia apoio, representação partidária ou recursos, em qualquer país, um pacto histórico com a Tradição deveria ser firmado pelos intelectuais que, em seguida, deveriam trabalhar nos jornais, realizar filmes, criar poesias, até que o pacto histórico reverberasse e, por fim, algum êxito fosse conquistado.

Isso está acontecendo agora na Europa, em grande parte devido à eleição de Trump. Parte da elite intelectual europeia e americana encontrou a força necessária para ir além da hipnose. Eles fizeram uma escolha em favor da Tradição e da identidade. E o que os russos podem concluir disso? Os pensadores russos devem estabelecer um pacto histórico com a Rússia e com o Povo, com nossa identidade. Não importa em que estágio estamos ou de quem a mídia toma partido. O pacto histórico com a identidade russa, a transição para o lado russo deve ser realizado: isso é o salutar. A maneira como vamos formalizar esse pacto não é relevante: um jornalista escreverá um artigo. Um funcionário público levá-lo-á em consideração em sua tomada de decisão. Um diretor realizará um filme. E no seio do Pacto, nossa dignidade intelectual e espiritual.

O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

A palavra “política” vem do grego polis, que significa cidade-Estado. Não é uma cidade, não é um Estado, mas é como se fosse um Estado em escala muito reduzida, com um centro urbano que funciona como uma instituição de unificação do Estado, onde todas as atividades direcionadas ao público, isto é, a política em sentido amplo, que inclui administração, formação intelectual, moral, religiosa e militar daquele povo. Eram “cidades” independentes em todos os sentidos, autossuficientes. Por isso elas constituem uma espécie de universo: a cidade-Estado é um universo à parte. E este é o sentido primitivo e originário do termo “política”: ser um universo, um microcosmo.
Nosso interesse aqui é buscar compreender um pouco de que modo as teorias modernas compreendem este universo e de que modo a Quarta Teoria o compreende. Porque são teorias completamente diferentes, que levam a consequências radicalmente distintas na estrutura, na organização e, assim, na administração desta estrutura.

E para compreender isto é necessário ter em mente o seguinte: em toda a história do pensamento e da política, bem como de todas as instituições subsequentes, como as ciências, o Direito etc., o que está em jogo nesta estrutura sistêmica (e metafísica) é uma tensão entre dois polos opostos: o indivíduo, de um lado, e o coletivo de outro. As disputas políticas, por essência, estão baseadas nesta tensão, pois os lados enxergam aspectos diferentes nela ou partem de interesses divergentes.

Multipolaridade: A Definição e a Diferenciação entre seus Significados

Mais e mais obras sobre relações exteriores, política mundial, geopolítica, e atualmente, política internacional, são dedicadas ao tema da multipolaridade. Um número crescente de autores tentam compreender e descrever a multipolaridade como um modelo, fenômeno, precedente ou possibilidade.

O típico da multipolaridade foi tocado, de uma maneira ou de outra, nas obras do especialista em relações internacionais David Kampf (no artigo, "A Emergência de um Mundo Multipolar"), do historiador Paul Kennedy da Universidade de Yale (em seu livro, "A Ascensão e Queda das Grandes Potências"), do geopolítico Dale Walton (no livro, "Geopolítica e as Grandes Potências no Século XXI: Multipolaridade e a Revolução em Perspectiva Estratégica"), do cientista político americano Dilip Hiro (no livro, "Após o Império: Nascimento de um Mundo Multipolar"), e outros. O mais próximo da compreensão do sentido da multipolaridade, em nossa opinião, foi o especialista britânico em RI Fabio Petito, que tentou construir uma alternativa séria e substanciada ao mundo unipolar com base nos conceitos legais e filosóficos de Carl Schmitt.

A "ordem mundial multipolar" também é repetidamente mencionada nos discursos e escritos de figuras políticas e jornalistas influentes. Foi assim que a ex-Secretária de Estado Madeleine Albright, que primeiro chamou os EUA de a "nação indispensável", afirmou em 2 de fevereiro de 2000, que os EUa não querem "estabelecer e impôr" um mundo unipolar, e que a integração econômica já criou "um certo mundo que pode até ser chamado multipolar". Em 26 de janeiro de 2007, na coluna editorial do "The New York Times", foi escrito abertamente que a "emergência do mundo multipolar", junto com a China, "agora assume lugar na mesa em paralelo com outros centros de poder como Bruxelas ou Tóquio". Em 20 de novembro de 2008, no relatório "Tendências Globais 2025", do Conselho de Inteligência Nacional dos EUA, foi indicado que a emergência de um "sistema global multipolar" podia ser esperada para dentro das próximas duas décadas.

A luta contra o liberalismo possui um aspecto antropológico

As raízes das ideologias totalitárias remontam à modernidade. A essência modernista do liberalismo mostra-se agora. Ele ficou sozinho e, assim, manifesta sua própria estrutura. Há aqueles que dizem “sim” a ele (ao eixo de governo liberal, a quinta e a sexta colunas). No entanto, a maioria da humanidade, cada vez mais, diz “não”. E, então, começamos a nos situar na Quarta Teoria Política. Enquanto permanecemos dentro do quadro das três teorias [modernas], nos deslocaremos sempre para uma delas (ou para uma mistura ideológica). No trato com seus oponentes, o liberalismo simplesmente os rotula ou de “fascistas” (equiparando-os a Hitler) ou de stalinistas. Como estamos diante de uma sociedade aberta (em referência à Sociedade Aberta de Karl Popper), seus inimigos são classificados como comunistas e fascistas. Mas a QTP propõe uma fórmula importante: “somos contra o liberalismo”. Se a armadilha da hegemonia consiste em nos identificar imediatamente com os fascistas ou os comunistas, a QTP propõe ir além destes, acrescentando à fórmula anterior: “não somos fascistas e nem comunistas”.

O sujeito da QTP é o Povo [Narod], considerado não enquanto população ou enquanto um conjunto de cidadãos: o Povo como um conceito cultural e histórico, que existe para além dos microciclos temporais, isto é, na eternidade social – aquilo que foi, é e será.

A Quarta Dimensão

No século XIX , testemunhamos a ascensão de guerras conduzidas em nome da humanidade, isto é, guerras de natureza moralizante e criminalizante, guerras baseadas em uma ideologia, onde princípios abstratos eram defendidos. Esse tipo de guerra assinalou o retorno da “guerra justa” (sua primeira aparição pôde ser observada durante a Guerra Civil Americana). A quarta forma de guerra é, agora, a guerra contra o “terror” (ou a “Guerra nas Estrelas”): uma guerra de caráter assimétrico e total.

Em muitos sentidos, nós já entramos na quarta dimensão da guerra. Entrar nesta quarta dimensão nos traz para mais perto da hora da verdade. A questão que permanece é: qual será a configuração geral das questões neste século, as principais linhas de demarcação e as clivagens decisivas? Por enquanto, vivemos em um tipo de interregnum. Porém, a partir de agora, a questão essencial deve ser abordada: o enigma do sujeito do processo histórico em um mundo cominado pelo capitalismo, no qual o próprio capitalismo está sujeito a terríveis contradições internas, enquanto, ao mesmo tempo, se torna cada vez mais forte, dia após dia. Quem será o sujeito histórico que abalará as coisas agora?

A pessoalidade econômica

Teoricamente, devemos afirmar um retorno radical ao Trabalhador integral, à pessoalidade econômica, contra a “ordem” capitalista desintegrada (que é, mais precisamente, um caos controlado) e o indivíduo crematístico. Isso implica em uma desurbanização radical e em um retorno às práticas agrícolas e à criação de comunidades camponesas soberanas. Este é o programa econômico da QTP – o ressurgimento da economia após a noite nebulosa da crematística, o renascimento da pessoalidade econômica do abismo do individualismo.

Mas não podemos ignorar a escala profunda do niilismo capitalista. O problema não tem uma solução técnica: o capitalismo não pode ser corrigido, ele deve ser destruído. O capitalismo não é apenas uma acumulação da parte maldita, ele é a própria parte maldita – essa é a sua essência. Portanto, a luta contra o capitalismo não é uma competição em termos de eficiência, mas uma luta escatológico-religiosa contra a morte.

O capitalismo, historicamente, ou melhor, historialmente (seynsgeschichtliche), é o penúltimo acorde do mistério eleusiano. A economia está apodrecendo sob a crematística, a pessoalidade econômica segue sendo despedaçada na esteira do Indivíduo, assim como os elementos e as estruturas vitais vão sendo destruídos pela mecânica do desejo eletrônico. Mas tudo isso passa a ter algum sentido se concebermos a história econômica como um mistério. Deste modo, estamos na última hora antes da aurora. Hoje, o capitalismo chegou em seu limite. O selo do Anticristo eletrônico foi desatado – tudo fica mais claro. Não se trata apenas de uma crise ou de uma disfuncionalidade técnica: chegamos no momento do Juízo Final, que é justamente o momento da Ressurreição. Mas para que a Ressurreição aconteça, é necessário que haja um sujeito da ressurreição, isto é, um iniciado, uma Pessoa, uma pessoalidade – um camponês.

Os precursores iranianos da Quarta Teoria Política

À época da Revolução Iraniana de 1979, apenas Fardid permanecia vivo do trio de Fardid, Al-e-Ahmad e Shariati. Porém, suas ideias exerceram uma influência definitiva sobre a oposição ao Xá Reza Pahlavi, a partir do qual governava um regime modernista e ocidentalizante, ajudado pelas forças repressivas da brutal polícia secreta SAVAK. A oposição popular e islâmica mobilizou milhões, culminando na expulsão do Xá. Após sua chegada no Irã, o próprio Khomeini visitou o cemitério, em que muitas das vítimas do Xá que haviam caído na revolução foram enterradas, para prestar tributo a seus sacrifícios. O “xiismo vermelho” do martírio havia conquistado uma vitória crucial. Após a Revolução, o Irã seria reconstituído, não nas bases das ideologias modernas do comunismo ou do capitalismo, mas segundo sua própria tradição islâmica. Em face das disputas por poder na Guerra Fria, o Irã traçaria um caminho independente, pressagiando a visão multipolar da Quarta Teoria Política. Ademais, o Irã eventualmente desenvolveria um programa nuclear, subjugando o poder da tecnologia à vontade do Estado islâmico, um desenvolvimento que Al-e-Ahmad certamente aprovaria.

Intelectuais como Al-e-Ahmad, Fardid e Shariati plantaram as sementes do poder iraniano, um poder baseado em sua essência histórica, em um mundo multipolar. Sua integração orgânica das antigas tradições de seu país com as ideias mais revolucionárias do século XX fornece um mapa para os partidários da Quarta Teoria Política. A obra de Fardid, Al-e-Ahmad e Shariati é um excelente exemplo do que deve ser feito em todo país que busca construir a base intelectual para sua libertação do globalismo ocidental, de modo a garantir seu futuro em um mundo multipolar. Eles mostraram o caminho para a renovação das grandes civilizações tradicionais em uma era de forças culturalmente destrutivas emanando do Ocidente.

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